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A Fina Pele do Planeta

Inicialmente, gostaria de lembrar dos cuidados que tomamos com a nossa pele: usamos protetor solar, chapéus, camisas com mangas longas; no verão e nas praias usamos protetor solar e cremes de toda ordem e tomamos todos os cuidados com a hidratação. Por sorte, quando exageramos na quantidade de sol ocorrendo as queimaduras e perda da pele, nosso organismo tem a capacidade de regeneração dos tecidos.

O filme da organização Conservation International, (https://www.youtube.com/watch?v=Woc62TCZTdo&list=PL5WqtuU6JrnU4_kKFldcKW-4qBVyrfnsh) ao ressaltar a importância do solo, faz uma analogia muito interessante comparando o solo, ou melhor, a camada fértil do mesmo, denominando-a de "Fina Pele do Planeta". Nós, profissionais da área agronômica, ressaltamos a importância da relação solo, planta e atmosfera e temos inclusive nos cursos de agronomia disciplinas e livros com este nome.

Todos os profissionais das áreas de ciências agrárias realçam a importância dessa relação, destacam normalmente as plantas que podem variar de pequenas espécies de hortaliças e flores até as plantações de espécies florestais que podem atingir alturas de 20 a 30 metros e cuidamos do solo, principalmente no que denominamos de camada arável (0 a 20 ou 30 cm).

Consideramos essa camada superficial dos solos como sendo a que é explorada pelo sistema radicular das plantas, a que retém a umidade e é a camada fértil do solo, na qual o sistema radicular das plantas se desenvolve e onde fazemos a aplicação dos nutrientes.

Crédito/Foto: Divulgação

Quando nos referimos a essa camada de 0 a 30cm, podemos até considerar que é uma grande camada se tomarmos como referência a altura de uma pessoa de 1,80m por exemplo, mas nos esquecemos que não é a nossa altura e nem o nosso horizonte de visão a referência que devemos considerar. Temos que relacionar esta camada superficial do solo, com o seu contexto, ou seja, o "planeta terra". Esse é o referencial e, quando assim fazemos, tomamos consciência da real espessura da camada de solo que reveste o planeta, que tem o diâmetro de 12.742 km, ou seja, 12.742.000 metros ou 1.274.200.000 cm. Dentre desse escopo, os 30 cm superficiais podem realmente ser considerados a "Fina Pele do Planeta".

Essa fina pele do planeta nas regiões em que as condições climáticas são favoráveis possibilitam a produção de alimentos que nos garantem a vida.

É necessário que todos tenham consciência dessa necessidade da conservação dos solos, pois não vivemos sem os alimentos nossos de cada dia. Norman Borlaug, Nobel da Paz de 1970, dizia: não se constrói a paz em estômagos vazios.

Conservar o solo é preservar a vida. Cuidemos, pois da Fina Pele do Planeta.

Por Antonio Roque Dechen, Presidente do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Professor Titular do Departamento de Ciência do Solo da ESALQ/USP e Presidente da Fundação Agrisus e Membro do Conselho do Agronegócio (COSAG-FIESP).

 

AINDA A FINA PELE DO PLANETA

No artigo anterior (A Fina Pele do Planta), mostramos o significado da analogia entre a pele dos animais e o solo cultivado que alimenta a humanidade, os animais e as plantas que vivem no planeta Terra.

Devemos considerar que a produção de alimentos é extremamente dependente do cultivo desses solos, por isso cada comunidade ou país deve preservar esse bem da natureza com todo cuidado. O país, na ordem geopolítica vigente, é a unidade responsável por essa questão, muito embora seja cada vez maior a tentativa de interferência das organizações internacionais.

Os engenheiros agrônomos são os profissionais mais intimamente relacionados com essa atividade humana, pois são, afinal, responsáveis por desenvolver tecnologias que permitam conservar e melhorar os solos onde vivemos. Nos últimos tempos houve um grande engajamento de toda a sociedade por uma conservação mais ampla do ambiente que deve ser preservado, mas nem sempre os conceitos são harmônicos, pois os chamados ambientalistas pouco se importam aparentemente com a necessidade da produção de alimentos.

A conservação e melhoria dos solos cultivados para garantir a sustentabilidade para as próximas gerações é o foco da Fundação Agrisus, que apoia a educação como forma mais ampla possível de levar ao agricultor as melhores técnicas de preservação e melhoria da fertilidade dos solos sob os aspectos da química, física e biologia.

Embora se dedique totalmente a seus objetivos, a capacidade da Fundação é limitada diante da enorme necessidade de desenvolvimento tecnológico para melhoria e conservação dos solos. O progresso conseguido no passado quando as instituições públicas tinham equipes capacitadas ainda sustenta o uso atual dos solos. Todavia o que se percebe é um esvaziamento das instituições de pesquisa, ficando mais uma vez evidente que outras instituições públicas, como os órgãos de defesa da agricultura, assumem o papel de policiar o uso dos solos pelos agricultores, enquanto a pesquisa e a extensão rural simplesmente estão deixando de ser uma prioridade nos estados brasileiros.

O cultivo de solos em áreas favoráveis quanto à topografia, aliado ao sistema de plantio direto, mostra que ainda é possível conservar bem os solos de vastas regiões do país. Isso se verifica também em regiões em que a tradição do uso do plantio direto pela maior facilidade de produção de biomassa no sul do país vem se consolidando e atualmente incorporando novas possibilidades, como os sistemas de ILP - Integração Lavoura Pecuária, onde a fase que seria descoberta passa a ter um componente essencial de conservação, que é a pastagem.

Solos cultivados em regiões mais problemáticas, principalmente os arenosos, por outro lado são uma preocupação constante sob o ponto de vista local nas propriedades rurais e, em especial, nas regiões limitadas por microbacias e bacias hidrográficas. É o caso específico do cultivo de solos arenosos por canaviais onde ainda ocorre uma excessiva movimentação da fina pele do planeta. São tecnologias que sempre foram usadas em solos argilosos e que, simplesmente, foram transferidas para outras regiões que exigiriam cuidados diferenciados. A consequência é um desastre de erosões promovendo todo tipo de assoreamentos e perda de produção hídrica nos antigos mananciais.

Fica a grande questão. Diante da incapacidade do setor público ou de sua falta de visão diante da sustentabilidade da produção de alimentos, quem deve assumir o papel de criar novas tecnologias e ensinar seu uso para os agricultores? Vemos que um grande esforço precisa ser feito e, sem dúvida, fundações como a Agrisus podem muito colaborar no direcionamento e apoio a essa discussão.

Os engenheiros agrônomos são os profissionais que precisam liderar movimentos deste tipo em benefício das gerações futuras no país. O futuro da humanidade depende da conservação da fina pele do planeta, todos já ouvimos: conservar os solos é preservar a vida.

Por Antonio Roque Dechen, Presidente do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Professor Titular do Departamento de Ciência do Solo da ESALQ/USP, Presidente da Fundação Agrisus e Membro do Conselho do Agronegócio (COSAG-FIESP); e Ondino Cleante Bataglia, Engenheiro Agrônomo formado na ESALQ/USP, Secretário Executivo da Fundação Agrisus e Diretor Presidente da empresa Conplant Consultoria.