Brasil no cheque especial da água

Você acharia prudente usar o cheque especial para suprir suas despesas básicas do cotidiano, tendo dinheiro em caixa? Não é necessário ser um economista para saber que a saúde das finanças da família estaria em risco e a sua vida vai ter um preço mais elevado do que deveria. Então, por que tratar a água, um recurso que, pode se tornar escasso, caso não seja administrado com responsabilidade, assim como as suas contas? Felizmente, há instituições que se preocupam com o uso responsável dela, mas ainda assim podemos observar, no quadro geral, um grande atraso no que diz respeito a programas de reutilização da água para fins industriais e comerciais ou domésticos. Muitas vezes se capta água de lençóis freáticos, que são reservas de água potável no subsolo – ou seja, uma espécie de cheque especial da natureza, e o preço dessa falta de planejamento pode custar caro a todos.

Apesar da abundância aparente – cerca de 70% da Terra é composta de água–, apenas 1,2% da água existente no planeta está disponível para consumo humano. Além disso, segundo a ONU, estima-se que ocorrerá uma redução de 40% da oferta deste recurso natural até 2030 e, segundo o Banco Mundial, há a previsão de diminuição de 6% nas taxas de crescimento do PIB global até 2050 em função da escassez hídrica. Há motivos para se preocupar. Outro dado importante é que, segundo a Agência Nacional das Águas (ANA), 45% do esgoto doméstico não recebe nenhum tratamento e é devolvido aos rios em forma de efluentes e poluição. Assim, a gente percebe, além de usar o cheque especial – lembre-se, tendo dinheiro em caixa! – para pagar os boletos, o ser humano ainda suja as roupas novas, ainda com etiqueta, sem sequer ter usado. Não me parece muito inteligente.

Crédito/Foto: Divulgação

Por isso, é para lá de razoável que este tema tenha grande prioridade para discussão. Nesta semana está acontecendo o 8º Fórum Mundial da Água, em Brasília, o primeiro encontro sediado em todo Hemisfério Sul, e tem o objetivo de chamar a atenção dos políticos para as necessidades do setor e, quando o assunto é água, muitos dados são chocantes, ainda mais para quem tem água potável chegando diariamente em casa. Ainda de acordo com a ONU, uma a cada sete pessoas do mundo tem que caminhar mais de 1km para ter acesso ao mínimo de água necessária para sobrevivência, que é de 20 litros por dia.

Se observarmos o ciclo da água, é possível destacar que é necessário investir nos ecossistemas produtores de água: restauração das florestas nas margens dos rios e nascentes, conservação das florestas já existentes e incentivo às boas práticas agrícolas para conservação de água e solo. Isso é o que chamamos de infraestrutura verde.

A floresta, com seus serviços ecossistêmicos associados, que interagem de diversas formas na interação água e solo e evapotranspiração, ajuda a garantir a infiltração e a permanência da água por um período de tempo mais prolongado no solo, contribuindo para manutenção da vazão dos corpos d"água ao longo das estações do ano, equilibrando assim o ciclo hidrológico. Portanto, a infraestrutura verde funciona basicamente como um filtro e como uma caixa d"água na bacia hidrográfica. Atualmente, algumas iniciativas estão em curso em vários locais do país para auxiliar de forma planejada no restabelecimento da infraestrutura em bacias hidrográficas mapeadas como vulnerável ou crítica em relação ao abastecimento hídrico. Estas são conhecidas como Programas Produtores de Água, e são projetos atrelados dentro da lógica do Pagamento por Serviços ambientais (PSA). O PSA nos Programas Produtores de Água visa remunerar produtores rurais que permitem ter suas florestas restauradas e conservadas e também que tenham adotado as boas práticas agrícolas de uso e conservação do solo.

Em contraponto, podemos pegar a cidade de São Paulo, que recentemente enfrentou racionamento de água e o que podemos ver é uma série de investimentos no cinza, não no verde, como por exemplo, a transposição do Rio Paraíba do Sul (interligação dos Rios Jaguari-Atibainha), obras de reversão das águas do Rio Itapanhaú, em Bertioga, para o Sistema Produtor Alto Tietê. Além de implantar capacidade de operação para o uso da água do dito volume morto das represas e de tecnologias para maior eficiência em limpeza da água (membranas ultrafiltrantes). Estas obras são necessárias, porém, como já disse, elas representam a priorização do cimento em detrimento à natureza. Não é essa a lógica. O modelo atual de gestão que se vê é que o volume produzido de água é gasto e não há uma fonte reserva para suprir nossas necessidades. As intervenções até surtiram efeito, mas não acredito ser esse o caminho para sair da crise hídrica que passamos a enfrentar.

Por Tiago Egidyo, Consultor Ambiental da Fundação Espaço ECO.

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