Manejo de requeima e míldio nos cultivos do Brasil

Os agentes causais das ferrugens brancas (Albugo) e dos míldios (Plasmopara, Peronospora, Peronosclerospora, Pseudoperonospora, Sclerophthora, Basidiophora e Bremia) são considerados parasitas obrigatórios, e os agentes causais da requeima, gomose, podridões, cancro, murcha e queimas (Phytophthora) e de tombamento, podridão das raízes, colo e colmo (Pythium), parasitas facultativos. Todas essas espécies pertencem ao Reino Chromista, classe dos Oomicetos. Apesar de sempre estarem agrupadas às doenças causadas por fungos, essas espécies não são fungos verdadeiros, já que apresentam hifas sem septos e parede celular com β-glucanas, celulose e sem quitina.

Esse grupo de fitopatógenos possui estruturas reprodutivas assexuadas, que são os esporângios, que por meio de clivagem citoplasmática, origina os zoósporos e as estruturas reprodutivas sexuadas oogônio (gametângio feminino) e anterídio (gametângio masculino), responsáveis, na maioria das vezes, pela sobrevivência do oomiceto no solo ou semente.

Os fungos são responsáveis por cerca de 65% das doenças de plantas e fazem parte de um grupo numeroso de organismos pertencentes a três Reinos dos seres vivos: além dos cromistas, também estão nos Reinos Protozoa (hérnia das crucíferas/Plamodiophora; sarna pulverulenta da batata/ Spongospora) e Reino Fungi (zigomicetos: Rhizopus; Ascomicetos: Erysiphe, Sclerotinia, Guignardia, Venturia; Basidiomicetos: Moniliophtora, Puccinia, Hemileia, Phakosopra, Usitilago: Deuteromicetos ou Mitospóricos ou Anamórficos ou Imperfeitos: Rhizoctonia, Oidium, Fusarium, Colletotrichum, Phomopsis, Alternaria).

Assim como os demais fungos e outros agentes causais de doenças de plantas (bactérias, vírus, nematoides e fitoplasmas), os oomicetos causam doenças quando encontram hospedeiros suscetíveis e ambientes favoráveis. Geralmente em condições de alta umidade/chuvas e temperaturas amenas/baixas, infectam, colonizam e se reproduzem nas plantas, interferindo em diversos processos fisiológicos e causando sintomas característicos.

A doença mais importante causada pelos oomicetos é a requeima da batata e do tomate, causada por Phytophthora infestans. Esta doença foi responsável pela morte de dois milhões de pessoas e um milhão de emigrantes na Irlanda por volta de 1845, devido à redução de 80% na produção de batata, base de alimentação da população naquela época.

Mais de 50% das espécies de plantas cultivadas podem ser afetadas por oomicetos; entre as principais estão algodão, arroz, cacau, cana, feijão, fumo, milho, seringueira, sorgo, abacate, abacaxi, caju, citros, maçã, mamão, morango, videira, alface, cebola, crucíferas, cucurbitáceas, gengibre, ornamentais e solanáceas.

Para manejar doenças de plantas, podem ser utilizadas diversas medidas que fazem parte dos métodos biológicos, químicos, genéticos, culturais, físicos e integrados. Para controle de doenças causadas por oomicetos a medida mais utilizada é a aplicação de fungicidas, que pertencem a grupos, em geral, diferentes dos produtos normalmente usados para controle de ascomicetos, basidiomicetos e deuteromicetos (estes fungos tem ergosterol na membrana celular; os oomicetos têm pouco ergosterol) e uso de cultivares com resistência genética aos oomicetos.

Além disso, é possível adotar diversas medidas culturais como local de cultivo sem neblina e sem solos encharcados, arejamento, poda, material de propagação sadio, eliminação de tecidos doentes e de hospedeiros alternativos, rotação de cultura com espécies não hospedeiras, boa drenagem, nutrição equilibrada, evitar ferimentos, pH do solo equilibrado, descompactação do solo e semeadura rasa contribuem para reduzir a quantidade dessas doenças. A utilização de agentes de controle biológico, como aplicação de Trichoderma e Gliocladium, e de medidas físicas como solarização e armazenamento em baixas temperaturas, também podem contribuir com o manejo das doenças causadas por oomicetos.

Entre os fungicidas, podem ser utilizados produtos imóveis/protetores e erradicantes como cúpricos, mancozeb, clorotalonil, tiram, metiram, captana, propinebe, fluazinam, folpet, famoxodine, zoxamida, fentina, ditiamina e mandipropamida. Também podem ser utilizados fungicidas sistêmicos/curativos especializados em oomicetos, como cimoxamil, metalaxil-M, fosetil, benalaxil, dimetomorfe, iprovalicarbe, propamicarbe, azoxistrobina, acibenzolar-S-metil e outros. Estes produtos, por ser sítio-específicos, devem ser usados com critério para reduzir a possibilidade de surgimento de linhagens resistentes aos oomicetos. Atualmente, são registrados, no Brasil, 169 produtos comerciais (simples ou misturas duplas), compreendendo 33 ingredientes ativos de 25 grupos químicos diferentes, para controle de 21 espécies de oomicetos em mais de 40 espécies de hospedeiros.

Por José Otavio Menten, presidente do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS). 

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