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O que estamos esperando para usar o biogás das estações de tratamento de esgotos?

Algumas coisas demoram muito no Brasil. Na Suécia, o biogás a partir das estações de tratamento de esgotos, desde os anos 1960, com o objetivo inicial de reduzir o volume dos seus resíduos. A partir da crise do petróleo nos anos 1970, entretanto, eles resolveram investir pesado na tecnologia para tirar cada vez mais energia da carga orgânica do esgoto a fim não apenas de reduzir problemas ambientais, mas também reduzir a sua dependência de petróleo.

A partir desse avanço tecnológico, outros setores começaram a desenvolver tecnologias para os seus próprios resíduos orgânicos, como a indústria de açúcar, de papel e celulose, a indústria de alimentos e até mesmo fazendeiros começaram a usar o biogás como fonte energética. 

Em 2014, a Suécia tinha 139 estações de tratamento de esgotos gerando 679 Gwh/ano, mais 35 digestores anaeróbicos de resíduos sólidos gerando mais 717 Gwh/ano e outros cinco digestores anaeróbicos para indústrias geraram 127 Gwh/ano. As demais 97 plantas de agricultura e recolhmento de gás de aterros geram mais 263 Gwh/ano. No total, as 276 plantas geram 1784 Gwh/ano. Desse total mais da metade (57%) ou 1.017 Gwh/ano é purificado para abastecer as frotas de veículos da Suécia que naquele ano consistiam de 46.975 carros, 2.315 ônibus e 755 caminhões. Eram 17% da frota total de ônibus do país rodando com biometano (biogás purificado). O resultado é que o país construiu uma indústria sólida de biogás e biometano capaz de movimentar os transportes urbanos das suas cidades a partir apenas dos seus resíduos orgânicos. E tudo isso começou ainda nos anos 1960. 

Já no Brasil, parecemos imobilizados. Além da baixa taxa de coleta e tratamento de esgotos, conhecida vergonha nacional, há pouquíssimas iniciativas de aproveitar o metano que é emitido de estações de lagoas e estações de tratamentos, bem como dos lodos de lá extraídos. É um desperdício e um descaso com a questão climática.

Alguns governos como o de São Paulo e Rio de Janeiro estão estabelecendo estatrégias para injetar biometano (biogás purificado) nas suas redes de distribuição de gás natural (fóssil). Um dos problemas encontrados é que onde a rede de distribuição de gás está bem estabelecida, há escassez de grandes fontes de metano, uma vez que a Agência Nacional de Petróleo e Biocombustíveis (ANP) ainda não autorizou a injeção de biometano a partir de aterros e estações de tratamentos, as maiores fontes de metano de áreas urbanas. Não está na hora de mirarmos no exemplo Sueco?

Marco Tsuyama Cardoso é Especialista em Regulação Econômico-Financeira da Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp).