Bons e maus exemplos da Copa do Mundo para o meio ambiente

O fato de a Copa do Mundo realizar-se no mesmo mês no qual se comemora o Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho) sugere uma reflexão que extrapola a mera coincidência de calendário: o lixo produzido nos estádios e nos seus arredores, bem como nas regiões nas quais se concentram as torcidas e seus entornos, é um problema pontual para as cidades-sedes, mas também amplifica e enfatiza o desafio relativo à educação ambiental, à coleta e destinação dos resíduos sólidos.

Relatório do Banco Mundial (Bird), intitulado What a Waste: a Global review of solid waste management, dados do Eurostat, organismo estatístico europeu, e do Atlas do Lixo (The Waste Atlas), indicam uma situação semelhante entre Brasil e Rússia no tocante ao volume de resíduos sólidos. Aqui, produzimos 383 quilos por habitante/ano; lá, 340 quilos. A maior diferença, em especial nas grandes cidades, refere-se à coleta e destinação.

No Brasil, a maioria das capitais e cidades de grande porte, dentre elas São Paulo, atende à Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305, de 2010), que extinguiu os lixões e estabeleceu a obrigatoriedade de aterros sanitários ambientalmente adequados. É verdade que cerca de metade dos nossos municípios ainda descumpre a legislação, mas na Rússia a situação parece mais grave. Até mesmo em Moscou, capital, há ainda cerca de 15 lixões nos subúrbios, e 24 foram fechados nos últimos anos devido à insalubridade.

Francisco Vianna é coordenador de Planejamento da Loga. 

Um relatório da Corporação Financeira Internacional (IFC, na sigla em inglês) do Banco Mundial, já alertava há alguns anos para a proliferação de depósitos ilegais de lixo no país, e os odores incomodam bastante a população. A questão ganhou maior dimensão política há cerca de um ano, quando os habitantes de Balashikha, a seis quilômetros de Moscou, reivindicaram soluções ao presidente Vladimir Putin.

Para os russos, tendo como base alguns números referentes à Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, a competição poderá agravar momentaneamente o problema. Em nosso país, o cálculo foi o de que se produziram 320 toneladas de resíduos sólidos nos 64 jogos do torneio. Esse volume, relativo às 12 arenas, foi coletado por catadores especializados e encaminhado à reciclagem, por meio de cooperativas, num programa que teve a parceria da Fifa.

A questão mais grave, porém, está nas ruas e locais de concentração das torcidas. No Brasil, as 12 cidades-sedes da competição produzem rotineiramente, somadas, 43 mil toneladas diárias de resíduos sólidos. Durante a Copa do Mundo de 2014, geraram cerca de 15 mil toneladas a mais por dia, segundo dados apresentados à época pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). E aí, infelizmente, assistiu-se a um verdadeiro espetáculo bizarro de falta de educação ambiental, por parte de brasileiros e de torcedores de muitos países, inclusive desenvolvidos, que sujaram exageradamente as ruas das cidades-sedes.

É inevitável o aumento do consumo e, portanto, da produção de resíduos sólidos durante eventos como a Copa do Mundo e a Olimpíada. Contudo, os países, com raras exceções, têm perdido a oportunidade de deixar um legado consistente, dentre outras áreas, no tocante ao meio ambiente urbano. Raramente se fazem investimentos para melhorar a coleta, destinação e reciclagem do lixo, como parte da adequação da infraestrutura. E não é por falta de verbas, considerando-se a grandeza e opulência dos estádios, obras paisagísticas, arquitetônicas e viárias em seu entorno.

Também seria oportuno relacionar, inclusive por meio de campanhas públicas, o comportamento das torcidas com o meio ambiente, buscando-se construir conceitos concretos e duradouros sobre a importância da boa educação nessa área tão importante. As analogias com o futebol são muito aderentes ao comportamento da sociedade, o que é comprovado pelo grande interesse da publicidade, dos patrocínios e da associação das marcas ao esporte.

Prova do quanto são marcantes as imagens ligadas aos grandes eventos esportivos é a memória da Copa do Mundo de 2014 relativa aos torcedores do Japão, que levaram aos estádios, em todas as partidas de sua seleção, saquinhos para acondicionar adequadamente os restos do que consumiam. Por isso, esse país foi o grande campeão do bom comportamento ambiental, numa competição decisiva para o Planeta. A humanidade não pode ser derrotada pelo desconhecimento, falta de consciência e políticas públicas inadequadas na área dos resíduos sólidos. Afinal, trata-se de algo decisivo para a saúde, bem-estar e qualidade da vida!

Novo estudo aponta a influência da mudança do clima causada pelo homem sobre eventos extremos
Brasil é campeão mundial na reciclagem de latinhas
ANA vai reajustar valor pelo uso da água em 2019
Taxa global do carbono pode oferecer novas soluções para ação climática