Empregos, competitividade e pesquisa

Foram semanas ricas em notícias importantes. E não estou falando de eleições ou candidatos. Se bem que os candidatos deveriam se preocupar com isso. (1) O agronegócio foi o campeão em fechamento de vagas. (2) O produto industrializado nacional chega ao mercado 30 % mais caro que os concorrentes. (3) A Capes vai cortar milhares de bolsas de Pós-Graduação em função do corte de verba.

Assuntos aparentemente independentes e desconexos. Será? Acho que não. Há um denominador comum na raiz de tudo isso: PESQUISA.

Foto: divulgação

Os chamados, até há pouco tempo, de Tigres Asiáticos tiveram seu desenvolvimento industrial fortemente apoiado em pesquisa, com geração de patentes e processos industriais, que resultaram em produtividade. Para isso, mandaram contingentes de recém-saídos das universidades buscar formação mais completa no exterior. Na volta, havia estrutura para que pudessem trabalhar. No Brasil, desde a criação da Embrapa, houve interesse na complementação da formação de pessoal na área do agronegócio. E, senhores, qual o setor no qual o Brasil é realmente competitivo? Qual o setor que vem bancando as contas nacionais? O agronegócio. Mera coincidência? Claro que não!

E agora outra notícia: a Capes, a principal financiadora da Pós-Graduação no Brasil, sofre cortes a ponto de interromper o programa de formação dos pesquisadores que poderiam realizar as pesquisas, gerar patentes, criar e aperfeiçoar processos. Não me parece muito inteligente da parte do governo.

Bom, e o problema de fechamento de vagas no agronegócio? Primeiramente, o negócio é que não é bom negócio ter muitos empregados no meio rural. Uma legislação trabalhista completamente fora da realidade.

Depois, onde tem se investido em formação de pesquisadores? Onde, apesar dos pesares, a pesquisa brasileira tem sido reconhecida mundialmente? Na produção agrícola e pecuária. Há, é certo, outras áreas, como a medicina e umas poucas outras.

O desenvolvimento tecnológico, com o barateamento das tecnologias, mais a dificuldade imposta pela legislação, resulta em demissões na área mais competitiva de nossa economia. Também, no campo, se exige hoje pessoal cada vez mais qualificado. O agronegócio deixou de ser um depósito de mão de obra não qualificada. A solução? Educação e qualificação, para que este contingente consiga colocação, desta vez com salários mais altos.

Entretanto, nem tudo são flores, mesmo nesta área tecnologicamente avançada da sociedade brasileira. Começando pela área federal, a Embrapa ficou meio fora de rumo, e sofre necessária reestruturação. As universidades formadoras dos quadros de pesquisadores padecem de falta crônica de recursos para o desenvolvimento de pesquisa de alto nível, para o que dependem de convênios com instituições do exterior.

O CNPq, um dos principais financiadores de pesquisa, tem lançado menos editais de pesquisa, e os lançados não têm seus valores corrigidos há tempos. Em São Paulo, a Fapesp, importantíssima e fundamental, sobrevive como é possível. Os Institutos de Pesquisa como o Agronômico de Campinas, o de Zootecnia, o Biológico, o de Economia Agrícola, entre outros, são deixados a morrer de inanição. Falta de responsabilidade dos governos.

Enfim, o agronegócio que vive e faz o Brasil viver, é competitivo e gera trabalho para pessoal tecnificado com base na pesquisa do passado. Estamos vivendo, mal comparando, como um caminhão na banguela, na descida, usando a energia acumulada. Está tudo bem. Mas, ali na frente tem subida, como vamos lidar com isso?

Ciro Rosolem é vice-presidente de Estudos do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e professor titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (FCA/Unesp Botucatu).

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