Lei do Canudinho: além de leis modernas é preciso mudança de mentalidade e elevação de padrões

A cidade do Rio de Janeiro é sabidamente um poderoso cartão postal do Brasil que atrai, anualmente, milhões de turistas, fonte de importantes receitas. Em 2017, bateu seu recorde com 6,5 milhões de turistas estrangeiros, mesmo em contexto de grave crise política, econômica e social.

Além de seu Cristo Redentor e outras tantas belezas admiradas pelos visitantes, a cidade conta com uma extraordinária orla marítima que, só na zona sul da cidade, soma mais de 6 quilômetros de praias, com algumas das mais famosas do mundo entre elas. E, na zona oeste, se encontra a maior praia do Rio, a Barra, com 18 quilômetros de extensão. Por toda essa extensão de praias, há uma estruturada rede de quiosques (cerca de 300) que atende aos visitantes, ofertando uma variedade de bebidas e comidas. Nestes quiosques, uma das bebidas cada vez mais consumida é a água de coco, importante isotônico que vem substituindo o consumo de refrigerantes. Só na orla da cidade, estima-se que sejam vendidos cerca de 30 milhões de cocos verdes por ano. Sua forma mais conhecida de consumo no Brasil ainda é diretamente na fruta, com uma abertura superior e a introdução de um canudo.

Foto: divulgação

O Brasil é o 4º colocado no ranking mundial de produção de coco e o 1º no consumo de água de coco verde. A constante expansão deste mercado levou a empresa brasileira Kero Coco, no ano de 2000, iniciar a produção industrial de água de coco, com envaze em caixinhas.

Em 2009 a Kero Coco foi adquirida pela multinacional PepsiCo e, em 2016 foi a vez da gigante Ambev adquirir a carioca Do Bem. O mercado brasileiro de água de coco vem crescendo a taxa média de 9% ao ano e as grandes indústrias do setor passaram a mirar também os mercados europeu e norte-americano.

Apesar de suas persistentes contradições, a cidade do Rio de Janeiro sempre se mostra capaz de reafirmar uma vocação cosmopolita, sintonizada com tendências internacionais. Uma dessas recentes ações foi a criação da lei que proibiu o fornecimento e uso de canudos plásticos na cidade. Votada pela Câmara dos Vereadores e sancionada em julho passado pelo prefeito da cidade, a nova lei está afinada com a campanha internacional #MaresLimpos# lançada ano passado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. A campanha veio na sequência da divulgação de relatório que revelou que, todo ano, os mares e oceanos recebem mais de 8 milhões de toneladas de plástico.

A campanha dirige seu apelo a governos, empresários e consumidores. Dos primeiros, cobra a elaboração de políticas públicas para a proteção dos ecossistemas marítimos; dos segundos, a redução da produção de embalagens plásticas descartáveis; e, dos terceiros, uma consciência orientada por práticas sustentáveis, particularmente no que tange ao uso do plástico e o modo de seu descarte.

Estima-se em US$ 8 bilhões anuais os custos com a poluição por plástico (descarte de garrafas, sacolas, copos e canudos) nos mares. A lei do canudinho é uma contribuição para o combate da poluição dos mares. Quando foi sancionada, estabeleceu um prazo de 60 dias para a adaptação de fabricantes e comerciantes. Encerrado o prazo, passa a ser objeto de multas para aqueles que descumprirem a lei.

Além do efeito positivo que uma tal lei produz sobre a imagem de uma importante cidade como é o Rio de Janeiro, que já foi palco em 1992 da maior conferência mundial de meio ambiente, a Eco92, são muitos os potenciais efeitos diretos e indiretos da lei. Para a cadeia produtiva da embalagem e, por extensão, a do coco verde, a lei pode provocar um repensar sobre seus processos.

Em recente artigo tratando da necessidade de mudança de rota no consumo do plástico, a professora Gleriani Ferreira, dedicada ao estudo e certificação de cadeias produtivas, avalia que "no Brasil ainda temos o desafio de convencer os governos a desonerar a indústria de reciclagem que, no que se refere ao plástico, tem tributação duplicada, já que os impostos incidem sobre o plástico e depois sobre o plástico reciclado. Nesse sentido, também é hora de seguir os países que já oferecem impostos menores para produtos que foram constituídos com menor uso de recursos naturais não renováveis ou oferecem maior eficiência energética."

Vale acrescentar que, além da criação de leis modernas e da tão esperada reforma do sistema tributário brasileiro, é também cada vez mais urgente uma mudança na conduta de grande parte do empresariado nacional, de pequeno, médio e grande porte, orientada pela efetiva busca de eficiência. Uma maior racionalização de processos e adoção de melhores parâmetros de qualidade, sobretudo na qualificação de mão de obra, são tarefas inadiáveis.

Sobre qualificação de mão de obra, vem se registrando algumas importantes iniciativas setoriais, realizadas através de parcerias entre indústrias, empresas de serviços, sindicatos e universidades.

No penúltimo final de semana de setembro, com termômetros marcando mais de 30 graus e praias cheias, quem decidisse tomar uma água de coco num dos vários quiosques instalados ao longo do calçadão de Copacabana se depararia com duas situações, igualmente ruins.

Num quiosque, próximo do posto 2 de Copacabana, o coco verde era vendido a R$6,00 e entregue ao consumidor acompanhado por um copo plástico, em função de uma alegada falta de canudo de papel. A operação de transferência da água do coco para o copo não é tão simples como pode parecer. A ação de segurar com uma mão o copo para não virar e, com a outra mão erguer o coco (que pesa cerca de 1,5 kg.) e despejar seu conteúdo no copo, dificilmente será realizada sem que parte do líquido caia fora do copo e ainda escorra pelo braço. Perguntando a uma funcionária do quiosque sobre a falta do canudo de papel, ouvia-se como resposta que estavam em falta e que os fornecedores não estavam atendendo os pedidos. Neste caso, o que se tem é uma transferência de um problema de gestão empresarial, para o consumidor.

Observando-se os outros quiosques, via-se em muitos deles o uso de canudos de plástico que, além de já proibidos, apresentavam-se sem a embalagem individualizada de proteção exigida. Perguntados sobre o uso do canudo de plástico, ouvia-se dos funcionários respostas que tentavam justificar a infração pela falta do canudo de papel. (Sabe-se que o canudo de papel tem um preço 10 vezes maior que o de plástico. Custa em média R$0,16 a unidade).

As aparentes falhas de organização e planejamento ficam assim nítidas e resultam de imediato, em um atendimento precário e insatisfação do consumidor.

A economia do Rio de Janeiro, desde muito, tem expandido a participação do setor de serviços na formação de seu PIB e, por conseguinte, na base para a arrecadação de impostos e geração de seu orçamento público.

O setor do turismo se constitui de uma variada rede de empresas de serviços e, por extensão, demanda uma variedade de produtos industrializados. Para cidades como o Rio de Janeiro, assegurar a qualidade dos serviços e eficiência de suas empresas é fundamental para o conjunto da economia.

Na cadeia produtiva do coco verde, para o consumo em sua forma in natura, o elo da comercialização é marcado pela presença de vários agentes de intermediação, ocorrendo até quatro transações comerciais antes do produto chegar ao consumidor final, o que eleva seu preço em mais de 600%.

No Brasil, ainda é incipiente o estudo de cadeias produtivas, ferramenta importante para a busca de melhoria de eficiência. O mapeamento de cadeias produtivas e os inovadores processos de certificação de cada elo visam identificar e corrigir gargalos, rever processos e melhorá-los. O caso da lei do canudinho e sua interação com o comércio da água de coco na cidade do Rio de Janeiro, abordado neste artigo, serve para ilustrar e sugerir a potencialidade de análises de cadeias produtivas para a melhoria de desempenho de setores.

Uma lei moderna como a da proibição do canudinho plástico pode estimular uma série de ações empreendedoras. As modernas teorias de administração podem orientar mudanças vantajosas em cada setor de atividade econômica.

Mas para tudo isso acontecer é preciso mais do que leis. É preciso uma mudança de mentalidade e atitudes. Cidades como o Rio de Janeiro, bem como todo o Brasil, podem fazer mais e melhor.

Arnaldo Francisco Cardoso é professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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