Levaremos 120 anos para aproveitar o potencial da bioeletricidade?

Em 2017, a bioeletricidade ofertou 25 TWh para o Sistema Interligado Nacional (SIN), sendo o setor sucroenergético responsável por 21 TWh deste total, representando sozinho o equivalente a 5% do consumo total de energia elétrica no país em 2017, chegando a quase 8% no auge da safra canavieira.

Contudo, se houvesse o aproveitamento pleno da biomassa dos canaviais na safra passada, a bioeletricidade teria potencial técnico para chegar a 146 TWh, aproximadamente sete vezes o volume ofertado ano passado, o que representaria mais de 30% do consumo de energia no SIN.


Zilmar José de Souza é gerente de bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) e professor da Faculdade Getulio Vargas (FGV/SP).
Foto: Divulgação
 

A estimativa deste potencial técnico da bioeletricidade é elaborada com base nos coeficientes técnicos de geração para cada biomassa presente no setor sucroenergético e apresentados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) na minuta do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2027), ainda em processo de Consulta Pública estabelecida pelo Ministério de Minas e Energia (MME).

Considerando a safra 2017/18, o potencial técnico da bioeletricidade sucroenergética para a rede foi aproveitado somente 15% de seu total. Esse potencial de 146 TWh representa algo como quase 4 (quatro) usinas do porte de Belo Monte, mostrando as grandes oportunidades que temos para aproveitar melhor o potencial dessa fonte renovável e sustentável, a partir de uma biomassa já existente nos canaviais.

Todavia, de acordo com a minuta de PDE 2027, a bioeletricidade em geral, partindo de 25 TWh em 2017, chegará a 38 TWh em 2027. A partir desta estimativa disposta no PDE 2027, podemos supor que o setor sucroenergético poderá representar uma oferta de bioeletricidade à rede de 32 TWh até 2027, um crescimento de pouco mais do que 1 TWh/ano.

Neste ritmo, levaremos quase 120 anos para aproveitar o potencial da bioeletricidade sucroenergética para a rede que existia em 2017, sem considerar o crescimento natural deste potencial ao longo do tempo, apenas pensando em aproveitar o que existe hoje nos canaviais.

Uma ponderação que possa justificar a timidez em relação à expansão da bioeletricidade no SIN talvez seja o custo efetivo da energia elétrica produzida pela biomassa em comparação com as demais fontes, uma vez que o PDE busca garantir o suprimento de energia do sistema a um preço mais competitivo possível.

Neste sentido, é importante mencionar, e adicionar ao processo de Consulta Pública, documento recentemente preparado pela PSR e Instituto Escolhas que apresenta a competitividade entre as fontes considerando a valoração dos principais atributos de cada uma delas.

No citado documento procura-se externalizar de modo transparente o custo final para os consumidores, na intenção de que seus resultados representem ponto de partida para a discussão com relação à criação de uma nova metodologia de precificação das fontes nos leilões de energia elétrica ou nos leilões, de contratação de lastro para o sistema, e de uma proposta para o aperfeiçoamento do planejamento da expansão do parque gerador.

De acordo com o estudo supracitado, a fonte renovável que apresenta o menor custo de investimento e operação para a sociedade, quando avaliados os serviços prestados para além da produção de energia propriamente dita, é justamente a geração a partir da biomassa localizada na Região Sudeste, onde também reside o grande potencial técnico da bioeletricidade, dado que a maior parte da cana-de-açúcar processada no país ocorre na Região Sudeste do país. Na safra 2017/18, a Região Sudeste foi responsável por 66,4% do total de cana-de-açúcar processada no país, sendo o estado de São Paulo sozinho responsável por 83,9% da cana-de-açúcar processada na Região Sudeste e 55,7% no país.

Quando se considera também as fontes não renováveis no estudo em tela, a bioeletricidade na Região Sudeste tem excelente desempenho, apresentando o segundo menor custo de investimento e operação para a sociedade civil, um pouco atrás da geração a partir do gás natural liquefeito, em ciclo combinado inflexível no Sudeste.

Ou seja, além de vasto potencial de crescimento, a bioeletricidade apresenta um dos menores custos totais de todas as fontes de geração no país e o menor custo global dentre as fontes renováveis, desde que contemplados determinados atributos econômicos, geo-elétricos e ambientais.

A despeito do significativo conjunto de atributos apresentados pela bioeletricidade, no PDE 2027, no cenário de referência para os anos 2022 a 2027, a expansão indicativa para a biomassa é de apenas 375 MW/ano, totalizando 2.250 MW, somente 5,7% da nova capacidade que será contratada até 2027.

É importante sermos mais ousados com relação ao aproveitamento desta fonte renovável estratégica para o setor elétrico, até por conta da relevância que a bioeletricidade também terá para o sucesso do aumento de oferta de etanol previsto pelo PDE até 2027 e do Renovabio, uma política de Estado fundamental para a segurança energética, o estímulo ao etanol e a redução das emissões de gases de efeito estufa. Etanol e bioeletricidade são produtos coirmãos e sinérgicos no portfolio das usinas sucroenergéticas.

Além do significativo conjunto de atributos apresentados pela bioeletricidade, o setor sucroenergético pode contribuir de forma mais aderente com as expectativas de incremento da produção de biomassa da cana-de-açúcar, fato que motiva a revisão dos atuais 375 MW adicionais por ano de bioeletricidade e aproveitar este potencial técnico numa taxa mais acelerada do que a prevista na minuta do PDE 2027.

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