Números da bioeletricidade em 2018 e uma agenda mínima para 2019

Em 2018, a bioeletricidade ofertada para a rede foi equivalente a atender mais de duas vezes o consumo de energia elétrica do Uruguai ou do Paraguai.

Em 2018, a estimativa é que a fonte biomassa em geral (incluindo as diversas biomassas) tenha produzido 26.563 GWh para o Sistema Interligado Nacional (SIN), volume 4% superior ao mesmo período em 2017, conforme levantamento da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), a partir de dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

Essa geração pela biomassa será equivalente a abastecer 14 milhões de residências ao longo do ano, evitando a emissão de quase 8 milhões de tCO2, marca que somente consegue-se com o cultivo de 55 milhões de árvores nativas ao longo de 20 anos.


Zilmar José de Souza é gerente de bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) e professor da Faculdade Getulio Vargas (FGV/SP).
Foto: Divulgação

Esses 26.563 GWh são também praticamente equivalentes ao consumo anual de energia elétrica da cidade de São Paulo ou a atender mais de duas vezes o consumo anual de energia elétrica de um país do porte do Uruguai ou Paraguai.

A maior previsibilidade e disponibilidade da bioeletricidade no período seco fazem com que o volume fornecido à rede pela biomassa, ao longo de 2018, seja equivalente a ter poupado 18% da energia armazenada total nos reservatórios das hidrelétricas do submercado Sudeste/Centro-Oeste. A bioeletricidade, cujo predomínio do combustível de geração está no setor sucroenergético (mais de 80% do total), é caracterizada como sazonal, mas não uma fonte intermitente, no estrito senso da operação do SIN, revelando sua importância estratégica para o SIN.

Contudo, ainda aproveitamos apenas 15% do potencial de geração da biomassa no país. Apenas no setor sucroenergético, se houvesse o aproveitamento pleno da biomassa atualmente presente nos canaviais, a bioeletricidade teria potencial técnico para chegar a 146 mil GWh, mais de 5 vezes o volume ofertado em 2018 pela fonte biomassa em geral, o que representaria atender mais de 30% do consumo de energia no SIN.

Para diminuirmos o hiato entre a geração efetiva de bioeletricidade e seu potencial é importante uma política setorial estimulante e de longo prazo para a bioeletricidade, com diretrizes claras e de continuidade, buscando garantir o pleno uso eficiente deste recurso energético renovável na matriz de energia do país.

Tal política setorial deve primar por diretrizes gerais envolvendo o esforço conjunto de agentes públicos e privados, dentre elas:

• Esforços para uma contratação regular e crescente para a bioeletricidade e biogás, com preços adequados nos leilões regulados: 2018 foi o 3º pior ano de contratação de novos projetos nos leilões regulados promovidos pelo Governo Federal, desde sua implantação em 2005. Precisamos promover leilões no ambiente regulado para a biomassa (e continuidade na contratação), com preços remuneradores, incorporando as externalidades da bioeletricidade e as características de cada projeto (retrofit; greenfield; aproveitamento da palha e bagaço; geração de biogás etc.).

• Fortalecimento do mercado livre e equacionamento da atual judicialização nas liquidações financeiras no Mercado de Curto Prazo (MCP): desde 2015, os geradores à biomassa não conseguem receber adequadamente pela geração excedente à comprometida em seus contratos. O mercado livre é muito importante para a bioeletricidade e seu fortalecimento somente será efetivo com o equacionamento da atual judicialização nas liquidações financeiras no MCP.

• Aprimoramento da metodologia de revisão da Garantia Física de Energia (GFE) para usinas à biomassa/biogás: a Garantia Física de Energia determina a quantidade de energia elétrica passível de contratação no mercado. A metodologia atual de revisão da GFE para usinas à biomassa/biogás não tem incentivado o gerador a produzir mais energia até o limite de sua capacidade, inibindo uma oferta potencial justamente nos momentos críticos de escassez de energia elétrica e de elevados custos para o consumidor final de energia elétrica.

Estimulada pelo RenovaBio, a Política Nacional de Biocombustíveis, e um ambiente de negócios favorável no setor elétrico, a bioeletricidade sucroenergética para a rede tem potencial para crescer mais de 50% até 2027, no horizonte do recente aprovado Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2027).

Ainda assim, passaríamos a aproveitar apenas 17% do potencial técnico dessa fonte de geração em 2027, demonstrando que existem grandes oportunidades para a bioeletricidade, sobretudo nos canaviais brasileiros.

A melhoria no ambiente de negócios para a bioeletricidade em 2019, com uma política setorial de incentivo ao investimento, é essencial para contribuir também para o desenvolvimento e sucesso do RenovaBio, que será traduzido na expansão da produção de etanol no Brasil. Etanol e bioeletricidade são produtos coirmãos e precisam de ambiente de negócios atraente para seu desenvolvimento e aproveitamento de seus incríveis potenciais disponíveis para a sociedade civil.

Artigo originalmente publicado no site CanalEnergia em 09/01/2019.

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