O poder de impulsão da biotecnologia

A produção sucroalcooleira do Brasil é uma das maiores do mundo. Uma usina de médio porte processa em torno de 15 a 20 mil toneladas de cana-de-açúcar por dia. Essa indústria é composta por cerca de 380 unidades de produção no Brasil, com mais de mil municípios com atividades relacionadas a ela.

O setor emprega, diretamente, mais de 950 mil pessoas, já que o país é o maior produtor e exportador mundial de açúcar e o segundo maior produtor de etanol. E a biotecnologia contribui com a inovação necessária para essa consolidada indústria de produção de etanol. Cada vez mais, essas empresas buscam ampliar suas atuações e produção diversificando as matérias-primas voltadas à produção sustentável de energia elétrica e de biocombustíveis.

Foto: divulgação

Nesse momento em que a produção global de etanol deverá duplicar em volume ao longo dos próximos anos, a experiência brasileira deve ser importante para o mundo. Em 2003, por exemplo, o país começou a produzir veículos de combustível flex, que funcionam com etanol hidratado e gasolina, que, no Brasil, é uma mistura de 18% a 27,5% de etanol anidro e gasolina. Em 2015, esses veículos já representavam 68% da frota nacional de veículos comerciais leves e com a expectativa de que esse número chegue a 85% até 2020, e isso porque, com a definição governamental de que a mistura chegue a 27,5%, o mercado interno do etanol irá se aquecer ainda mais.

Essa indústria ainda é importante para a sustentabilidade e para o meio ambiente. É uma indústria ecológica. Estima-se que a combinação de etanol e os veículos de combustível flex tenha reduzido as emissões de dióxido de carbono no Brasil em mais de 189 milhões de toneladas desde 2013, o que é equivalente a plantar e a manter 1.355 milhões de árvores por 20 anos. Isso é bastante relevante quando olhamos para o setor de transportes.

Cerca de 25% das emissões globais de CO2, atualmente, provêm desse setor, e diferentes estratégias estão sendo consideradas para resolver isso. Esse é um imenso desafio, já que se avalia que mais da metade das emissões de CO2 provenientes do transporte em 2050 não virão de carros, mas de veículos pesados, como os aviões, navios, trens, caminhões e outros.

Apesar da imagem de estagnação da economia brasileira, esse setor obteve alguns avanços importantes ao longo dos últimos anos. Ainda hoje, ele continua sendo responsável por algo em torno de 2% do PIB brasileiro, e não é de agora. Nos últimos dez anos, o segmento manteve a média anual de 600M toneladas de cana-de-açúcar processada, não conseguindo superar esses números.

Mesmo com os altos e baixos da nossa economia, como nos anos de 2009 a 2011, quando o crescimento da capacidade e do investimento desacelerou, os preços do açúcar continuaram altos, e as usinas foram geralmente lucrativas. Entendemos que o período mais difícil foi entre 2012 e 2015, quando mais de 60 usinas brasileiras – representando uma em cada sete – entraram em falência. Além disso, os níveis de dívidas aumentaram dramaticamente, comprometendo a estabilidade financeira de muitas delas.

Não há culpados. As causas da crise vieram de muitas direções diferentes e incluíram preços baixos para o açúcar e o etanol, colheitas de cana-de-açúcar pobres devido ao mau tempo, menor disponibilidade de linhas de crédito, controles governamentais sobre os preços da gasolina, que limitaram os lucros dos produtores de etanol, e outros muitos fatores.

O resultado disso nós vimos na prática. Até 2013, apenas 23% dos proprietários de automóveis de combustível flex no Brasil usavam etanol regularmente, número que era 66% em 2009. Em 2014, o país começou a importar etanol dos Estados Unidos. Hoje, mesmo enquanto ainda vemos os reflexos da crise econômica nos mais diversos setores, o mercado brasileiro de etanol é o mais otimista. Uma importante e nova legislação, o RenovaBio, foi assinada e é semelhante ao programa de combustíveis com baixa emissão de carbono da Califórnia.

Ao mesmo tempo, o acordo de mudança climática de Paris aumentou as expectativas para a produção global de etanol, agora prevista para duplicar em 2030, de acordo com a Agência Internacional de Energia. Somente na América Latina, a produção de etanol deve aumentar em cerca de 20 bilhões de litros por ano nos próximos 12 anos.

A indústria, que viveu os anos de crise, aprendeu valiosas lições sobre o investimento em inovação, flexibilidade, eficiência e controle de custos para tornar o negócio à prova de crise. Para ter sucesso, qualquer indústria precisa aumentar as receitas ou reduzir os custos operacionais. As usinas brasileiras de cana-de-açúcar querem fazer os dois, mas operam em um ambiente desigual.

Por isso o segmento precisa avançar em termos de implementação de tecnologias, tanto na melhoria de eficiências dos processos existentes, quanto na adoção de tecnologias disruptivas, como o etanol de segunda geração. A biotecnologia pode, certamente, contribuir para esse processo de modernização do setor, contribuindo para diversas propostas, como a expansão da capacidade associada à eficiência, por meio de soluções que possam otimizar o processo do campo ao consumidor final, dentre outras, que vão desde a diversidade de variedades de cana-de-açúcar mais resistentes a pragas ou com maior produtividade por hectare, até o crop protection, com a utilização de micro-organismos, enzimas para aceleração de reações na fermentação etanólica, recirculação de vinhaça ou produção de biogás com soluções biotecnológicas, além de soluções disruptivas, como o etanol 2G ou a produção de produtos de alto valor agregado a partir dos mesmos açúcares da cana.

Um exemplo de utilização de biotecnologia para aumentar a capacidade já está disponível no mercado brasileiro. As usinas conseguiram aumentar o rendimento de etanol em uma média de 3%-4% usando métodos mais recentes de biotecnologia para liberar seus fermentadores. Estimamos que uma usina brasileira de cana-de-açúcar de 3 milhões de toneladas que produza 60/40 de mistura de açúcar/etanol poderia produzir um equivalente adicional de 4.000m3 de etanol por ano, se mudar para soluções de biotecnologia, potencializando seu fluxo de receita em estimados USD 2 milhões (EUR 1,7 milhão).

Além disso, as usinas podem economizar, em média, BRL 140.000 por ano (cerca de USD 42.000/EUR 35.000), isoladamente, em produtos químicos relacionados à espuma, usando métodos baseados na biotecnologia. Embora seja uma melhoria relativamente modesta, essas economias de custos podem ser consideravelmente maiores se os custos indiretos de produtos químicos também forem considerados, por exemplo, menor produtividade devido ao volume morto de fermentadores causado pela espuma, menor eficiência de centrifugação, incrustação de equipamentos etc.

Pedro Luiz Fernandes é vice-presidente de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da Novozymes.

Artigo originalmente publicado no site da Revista Opiniões.

Calendário 2019
Mudanças do clima estão tornando os incêndios maiores, mais quentes e perigosos
Solvay inaugura fábrica no Brasil e amplia participação na química sustentável
Mulheres, inovação e protagonismo