Reflexões sobre as fronteiras do setor elétrico

No Brasil e no mundo, será crescentemente desafiado o arranjo do setor elétrico que segue a lógica "geração centralizada em grandes usinas, transmissão por longas distâncias, distribuição dos elétrons conduzida por concessionárias em áreas geográficas que não competem entre si, e consumidor passivo que só paga a conta."

Afinal, a inserção de geração distribuída, de veículos elétricos, de baterias e de equipamentos dotados de interconexão digital ("Internet das Coisas") alterarão o perfil da produção e do consumo de energia elétrica, e a ampliação da liberdade de escolha por parte do consumidor viabilizará mais concorrência e mais inovação.

Foto: Divulgação

Estudiosos globais como Fereidoon P. Sioshansi expressam algumas das reflexões que definirão os novos tempos do setor – com livros como "Innovation and Disruption at the Grid"s Edge" ("Inovação e rupturas nas fronteiras da rede") – examinando, por exemplo, fenômenos como o desenvolvimento de transações "peer-to-peer" possibilitadas por plataformas transacionais, a venda de excedentes de eletricidade por prossumidores solares e o armazenamento compartilhado via baterias.

O tratamento regulatório e os impactos destes fenômenos sobre todos os elos da cadeia de valor começam a sair das arenas acadêmicas e passam a integrar não apenas as salas de conselhos de administração das empresas incumbentes e entrantes, como também os gabinetes das autoridades responsáveis pela formulação de políticas públicas.

Tais transformações exigirão mudanças em toda a cadeia de valor do setor, entre as quais: (a) a capacidade de gerar energia de forma flexível, sob demanda, e de prestar serviços auxiliares; (b) as redes de transmissão e distribuição terão que ser modernizadas para lidar com um padrão mais variável e bidirecional de fluxos elétricos; (c) as distribuidoras poderão assumir um papel cada vez mais importante na coordenação da operação local e como DSOs ("Distribution System Operators"); e (d) as distribuidoras, os comercializadores e os fornecedores poderão oferecer novos produtos e serviços.

Em função da alta complexidade, interdependência e simultaneidade dos fenômenos acima, pode ser saudável estruturar a discussão dos novos panoramas tecnológicos, regulatórios e empresariais do setor elétrico a partir de duas perspectivas.

A primeira perspectiva se refere à oferta de energia, e aqui surgem algumas perguntas fundamentais. Afinal, qual é a perspectiva para a expansão da geração centralizada, cujos modelos estão na "zona de conforto" de nossos formuladores de políticas públicas, mas que precisam ser repensados? A geração distribuída ocupará quais espaços e com qual velocidade, impondo quais desafios para o planejamento e a operação? Quais adequações são necessárias nas redes para acomodar esta nova realidade?

Já a segunda perspectiva incorpora o novo protagonismo do lado da demanda ao repensar o papel dos consumidores do futuro diante das novas opções de oferta e consumo. A introdução da figura de prossumidor (consumidor que também produz eletricidade) imporá quais pressões sobre os agentes de geração, transmissão, distribuição e comercialização? Quais mudanças regulatórias precisam ser feitas para minimizar instabilidades indesejáveis?

Claudio Sales é presidente e Eduardo Müller Monteiro diretor executivo do Instituto Acende Brasil.

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