Sustentabilidade: legado ou negócio

Em 1992, quando me formava na Esalq-USP, já se discutiam, há algum tempo, e ainda mais forte com a realização da ECO-92 no Brasil, questões relacionadas à sustentabilidade. Naquela época, as iniciativas de busca por caminhos produtivos que causassem menores impactos socioambientais eram bem tímidas. Os anos se passaram, e o mundo mudou; as questões relacionadas à sustentabilidade entraram para a pauta dos consumidores em geral, em um mundo mais globalizado.

Países começaram a exigir uma produção em que, minimamente, se pensasse num impacto menor ao ambiente e à sociedade. O mercado pedia que os olhares se voltassem para a sustentabilidade do planeta, no pensamento de que os recursos naturais eram finitos, enquanto o consumo desses recursos aumentava em escala exponencial.

Foto: divulgação

Ainda assim, não havia diretores de sustentabilidade, relatórios de sustentabilidade e muito menos rankings disputadíssimos entre as empresas, como o Dow Jones Sustainability Index, que só foi criado em 1999. Hoje, quais setores que visam acessar um mercado mais exigente não têm em seus quadros um profissional que cuida das questões relacionadas à sustentabilidade?

Não é mais, há muito tempo, uma questão de ambientalistas e ONGs da década de 1980 e 1990, é uma questão de sobrevivência num mercado cada vez mais exigente, onde consumidores, acionistas e investidores estão de olho nos relatórios de sustentabilidade das empresas ao redor de todo o mundo. E não basta estar no papel, é preciso ações efetivas, que visem a resultados mensuráveis, que certamente influenciarão nos índices financeiros dessas corporações.

Olhando por esse lado, a sustentabilidade passou a fazer parte do negócio, já que o mercado, muito mais atento, separa o joio do trigo, ou melhor, a cana produzida com valores que vão ao encontro da pauta da sustentabilidade da que ainda é produzida sem cuidar desses aspectos. O fato é que os setores que hoje não pensarem com profissionalismo, transparência e visão de futuro numa governança que tenha em sua pauta a busca por processos de menor impacto negativo ao meio ambiente e às pessoas estão fadados ao fracasso, se não por uma questão de mercado, pelo fato de muitos setores já sentirem a escassez de recursos naturais, como é a questão relacionada a recursos hídricos, por exemplo.

Para essa busca de melhores índices de sustentabilidade, surgem as certificações de boas práticas socioambientais, como é o exemplo do Bonsucro, que cria padrões para melhoria das plantações de cana e indústrias de produção de açúcar e etanol, atestando boas práticas ambientais e sociais. O ISCC (International Sustainability and Carbon Certification) é um outro exemplo de processo de certificação de biomassa e biocombustíveis que abre portas ao exigente mercado europeu. A certificação voltada ao setor sucroalcooleiro ainda tem muito o que evoluir num país como o Brasil, com realidades sociais e ambientais tão diversas.

Recentemente, analisamos, em alguns biomas brasileiros onde se encontram plantios de cana, a compreensão do conceito de grasslands adotado pelo ISCC. Nossas condições ambientais são muito diversas, indo desde ambientes florestais a ambientes campestres, apenas dentro do bioma cerrado. No entanto ignorar a existência da crescente demanda por obter um selo é perder o trem da história e, certamente, dos bons negócios.

Não há mais como voltar. A velha frase da era da revolução industrial “Onde há poluição, há dinheiro” já está morta e enterrada num passado remoto. Há muitos problemas socioambientais a serem combatidos, e, certamente, as soluções vêm de ações assertivas, tanto do poder público quanto do meio empresarial. Somos criativos, temos muita riqueza natural, e isso nos faz únicos no Brasil, mas nada disso é para sempre num modelo insustentável de sociedade e de pensar a produção.

Hoje, a poucos meses de completar 50 anos, penso que a sustentabilidade é, sim, um grande negócio, mas, acima de tudo, o que mesmo viemos fazer aqui? Você algum dia já se fez essa pergunta? Como empresária, penso que o meu legado não é a empresa sólida e de bons valores que, ao longo da vida, construí junto com os meus colaboradores e sócio, tampouco o patrimônio acumulado.

Tudo isso é fluido com o passar dos anos. Penso que o legado que nossas instituições e nós, como gestores e seres humanos, podemos deixar é a contribuição que damos para a construção de uma sociedade que pense o equilíbrio entre produção e ambiente que vivemos e, mais do que isso, a certeza de que trabalhar por um mundo melhor é cuidar da biodiversidade e das pessoas que nele vivem. Essa é a minha crença e esse, o legado que, hoje, me faz achar que o caminho vale a pena.

Monica Cabello de Brito é diretora da Casa da Floresta.

Artigo originalmente publicado no site da Revista Opiniões.

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