Cientistas alertam sobre declínio perigoso da biodiversidade

A biodiversidade continua a diminuir em todas as regiões do mundo, reduzindo significativamente a capacidade da natureza de contribuir para o bem-estar das pessoas. Essa tendência alarmante coloca em risco as economias, os meios de subsistência, a segurança alimentar e a qualidade de vida das pessoas em todos os lugares, de acordo com quatro importantes relatórios científicos publicados na última sexta-feira (23) por mais de 550 especialistas de mais de 100 países.

Como resultado de três anos de trabalho, as quatro avaliações regionais de biodiversidade e serviços ecossistêmicos cobrem as Américas, a região da Ásia-Pacífico, a África, bem como a Europa e a Ásia Central - todo o planeta, exceto os polos e os oceanos abertos.

"A biodiversidade e as contribuições da natureza para a humanidade parecem, para muitas pessoas, acadêmicas e distantes de nossas vidas diárias", explica o Presidente do IPBES, Sir Robert Watson. "Mas nada poderia estar mais longe da verdade - elas são a base da nossa alimentação, água limpa e energia. Elas estão no coração não apenas de nossa sobrevivência, mas de nossas culturas, identidades e prazer da vida. A melhor evidência disponível, reunida pelos principais especialistas do mundo, nos aponta agora para uma única conclusão: devemos agir para deter e reverter o uso insustentável da natureza - ou arriscar não apenas o futuro que queremos, mas até as vidas que atualmente conduzimos. Felizmente, as evidências também mostram que sabemos como proteger e restaurar parcialmente nossos ativos naturais vitais".

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Os relatórios de avaliação das Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), amplamente revisados por pares da ciência, enfocam o fornecimento de respostas a perguntas-chave para cada uma das quatro regiões, incluindo: por que a biodiversidade é importante, onde estamos progredindo, quais são as principais ameaças e oportunidades para a biodiversidade e como podemos ajustar nossas políticas e instituições para um futuro mais sustentável?

Em todas as regiões, com exceção de alguns exemplos positivos onde lições podem ser aprendidas, a biodiversidade e a capacidade da natureza de contribuir para as pessoas estão sendo degradadas, reduzidas e perdidas devido a uma série de pressões comuns - estresse do habitat; superexploração e uso não sustentável de recursos naturais; poluição do ar, terra e água; aumento do número e impacto de espécies exóticas invasoras e as mudanças climáticas, entre outros.

"O valor econômico das contribuições da natureza terrestre das Américas para as pessoas é estimado em mais de US$ 24 trilhões por ano - equivalente ao PIB da região. Mas quase dois terços - 65% - dessas contribuições estão em declínio, com 21% diminuindo fortemente. A mudança climática induzida pelo homem, que afeta a temperatura, a precipitação e a natureza dos eventos extremos, está aumentando a perda de biodiversidade e a redução das contribuições da natureza para as pessoas, piorando o impacto da degradação do habitat, poluição, espécies invasoras e superexploração dos recursos naturais" destaca o co-presidente da avaliação das Américas, Jake Rice (Canadá).

De acordo com o relatório, sob um cenário "business as usual", a mudança climática será o pressão que mais cresce sob a biodiversidade nas Américas até 2050, impactando-a negativamente e tornando-se comparável às pressões impostas pelas mudanças no uso da terra. Hoje, em média, as populações de espécies em uma área são cerca de 31% menores do que na época que os europeus se estabeleceram no continente. Com os efeitos crescentes da mudança climática adicionados aos outros fatores, essa perda é projetada para atingir 40% até 2050.

O relatório destaca o fato de que os povos indígenas e comunidades locais criaram uma diversidade de sistemas agroflorestais e de policultivos que aumentaram a biodiversidade e moldaram as paisagens. No entanto, a dissociação de estilos de vida do ambiente local erodiu, para muitos, seu senso de lugar, idioma e conhecimento local. Mais de 60% das línguas das Américas e culturas associadas a elas estão afetadas ou desaparecendo.

Opções Políticas Promissoras Disponíveis

Junto com as preocupações dos especialistas do IPBES, há mensagens de esperança: opções políticas promissoras existem e foram encontradas para trabalhar na proteção e restauração da biodiversidade e contribuições da natureza para as pessoas, onde elas foram efetivamente aplicadas.

Nas Américas, a proteção das principais áreas de biodiversidade aumentou 17% entre 1970 e 2010, mas menos de 20% das principais áreas de biodiversidade estão protegidas e a cobertura varia significativamente. O relatório deixa claro que áreas protegidas e projetos de restauração são apenas algumas das possíveis intervenções - com a necessidade de também se concentrar em estratégias para tornar as paisagens dominadas por humanos mais favoráveis à biodiversidade e às contribuições da natureza para as pessoas.

Também afirma que a biodiversidade e as contribuições da natureza para as pessoas estão melhor protegidas quando integradas a uma ampla gama de políticas econômicas e setoriais, como o pagamento por serviços ecossistêmicos e a certificação ecológica voluntária. Combinações apropriadas de, por exemplo, mudança de comportamento, melhoria da tecnologia, pesquisa, níveis adequados de financiamento, educação aprimorada e programas de conscientização pública são outras opções.

"Embora não exista uma bala de prata ou respostas de tamanho único, as melhores opções são encontradas em melhor governança, integrando preocupações com a biodiversidade em políticas e práticas setoriais (por exemplo, agricultura e energia), a aplicação do conhecimento científico e tecnológico, aumento da conscientização e mudanças comportamentais", finaliza Watson.