Coalizão de empresas da área agroflorestal apresenta propostas aos candidatos às eleições 2018

Segundo maior exportador mundial de alimentos, respondendo por 7% de toda a comida do planeta, o Brasil tem enormes desafios a superar na ocupação e uso de seu território. As mudanças de uso do solo, como o desmatamento, e a agropecuária respondem por cerca de dois terços das emissões de carbono no país. Por outro lado, com práticas mais sustentáveis, esses setores podem não apenas reduzir sua emissão, mas também capturar carbono da atmosfera, e tornar-se, portanto, parte da solução.

É por isso que a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura - movimento multisetorial composto por mais de 170 membros, entre entidades que lideram o agronegócio no Brasil, as principais ONGs da área de meio ambiente e clima e representantes de peso do meio acadêmico - apresentará aos principais candidatos às eleições deste ano, um conjunto de 28 propostas, relacionadas ao uso da terra, factíveis de serem alcançadas em um mandato de quatro anos. As propostas podem ser adotadas pelos candidatos, tanto ao poder executivo quanto ao legislativo. Boa parte delas é baseada em instrumentos já existentes e que simplesmente precisam ser aprimorados ou colocados em prática.

Foto: divulgação

“O Brasil precisa revolucionar o seu uso da terra e essa demanda é também uma oportunidade para o próximo governo. Nossa agenda está diretamente ligada ao desenvolvimento do Brasil e tem o poder de pautar o caminho para uma economia de baixo carbono, alinhada aos desafios do século XXI”, afirma o facilitador da Coalizão Brasil, André Guimarães.

As propostas da Coalizão Brasil apontam também para oportunidades de captação de recursos para o país. Por exemplo, os valores de referência dos acordos firmados pelo Fundo Amazônia indicam que o Brasil poderia captar US$ 30 bilhões apenas com base nas reduções de emissões pelo desmatamento nessa região entre 2006 e 2015. Esse valor poderia representar um grande estímulo à economia nacional, além de gerar renda no campo por meio da conservação ambiental.

Divididas em três eixos – 1) Ordenamento Territorial; 2) Dinamização dos Mecanismos de Mercado; e 3) Agropecuária de Baixo Carbono Aliada à Conservação, Restauração, Reflorestamento e Uso Sustentável dos Recursos Naturais - as 28 propostas criam um círculo virtuoso, na qual uma favorece a outra. É o caso, por exemplo, do Cadastro Ambiental Rural (CAR) que, se devidamente implementado, pode ajudar o produtor a superar a teia dos 15 cadastros oficiais diferentes e não integrados que existem hoje na esfera federal, a qual gera conflitos e insegurança jurídica e custos econômicos significativos para o poder público e proprietários rurais. A implementação do CAR poderá também se tornar um critério para a concessão de crédito agrícola, vinculando os financiamentos bancários à efetiva implantação dos instrumentos do Código Florestal e suspendendo o acesso a crédito a propriedades com desmatamento ilegal. Já que grande parte do setor produtivo se apoia na concessão de crédito subsidiado, medidas como essa representam um importante estímulo às práticas sustentáveis.

O estímulo ao uso inteligente das informações no planejamento territorial também faz parte do escopo de sugestões, como no caso da proposta de fomentar a expansão da agropecuária e a recuperação florestal em áreas desmatadas, mas que se encontram abandonadas ou subutilizadas. Hoje, a agropecuária ocupa uma área de 269 milhões de hectares do território nacional, incluindo entre 30 a 40 milhões de hectares de pastagens degradadas e outros 24 milhões de hectares de áreas improdutivas, segundo estimativas. Além de aproveitar essas áreas já abertas, a Coalizão Brasil sugere ainda iniciativas específicas para recuperar a cobertura florestal em áreas de recarga dos aquíferos das bacias hidrográficas consideradas estratégicas, dado que as crises hídricas estão cada vez mais recorrentes no Brasil e que os mananciais apresentam elevado índice de desmatamento e degradação em praticamente todas as regiões metropolitanas do país, comprometendo a capacidade de recarga e a qualidade do recurso hídrico. Medidas como essas contribuiriam para que o Brasil consiga cumprir seu compromisso internacional de restauração e reflorestamento de 12 milhões de hectares de florestas até 2030. “A convergência da agenda de florestal com outras agendas prioritárias pode ser um importante direcionador desse processo”, destaca André.

Para isso, no entanto, o Brasil precisa conhecer melhor onde estão as áreas degradadas e onde ocorre o desmatamento. Os dados oficiais incluem somente o desmatamento na Amazônia e na Mata Atlântica. Com isso, ainda não se tem um conhecimento da extensão e da dinâmica da degradação em outros biomas, como o Cerrado, Caatinga, Pantanal e Pampas. Essa lacuna impede o planejamento e a implementação de medidas necessárias à conservação da biodiversidade em todo o território nacional. Além de conhecer seu passivo em todos os biomas, a Coalizão Brasil recomenda que o próximo governo garanta recursos financeiros e institucionais para que sistemas de monitoramento do desmatamento, restauração e reflorestamento sejam implantados em todo o país, para permitir a produção de relatórios anuais que subsidiem ações de conservação.

Com base no sucesso da moratória da soja, a Coalizão Brasil propõe ainda instituir mecanismos para estabelecer o princípio da corresponsabilização em todos os elos das cadeias de valor da produção florestal e agropecuária. Dessa forma, danos ambientais nas diferentes etapas da produção seriam responsabilizados, o que ajudaria a coibir a ilegalidade. Para tanto, a Coalizão Brasil reconhece o lançamento do Sistema Nacional de Controle da Origem de Produtos Florestais (Sinaflor), em 2017, como um importante primeiro passo para integração das informações de diferentes fontes e combate do desmatamento ilegal.

As propostas envolvem também uma postura de coerência por parte do governo, como a exigência de que os produtos florestais adquiridos pelo poder público sejam rastreados e sobretaxa em produtos sem rastreabilidade. O Estado precisa servir de exemplo em um país no qual cerca de 80% da madeira comercializada possui algum grau ou componente de ilegalidade. O arcabouço legal brasileiro já conta com uma série de políticas que estimulam as compras sustentáveis, com destaque à preferência nas licitações para propostas que economizem recursos naturais e reduzam gases de efeito estufa e resíduos, critério previsto na Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC).

A Coalizão Brasil também recomenda desenvolver mecanismos de financiamento e incentivo à Pesquisa & Desenvolvimento e Inovação voltados ao uso sustentável de produtos não madeireiros e dos recursos genéticos e bioquímicos das florestas nativas, como forma de valorização da biodiversidade nacional. “O Brasil explora pouco o potencial da sua biodiversidade, que poderia ser o caminho para um uso sustentável de suas florestas e o desenvolvimento de novos produtos não madeireiros. Para isso, são necessárias medidas de incentivo à pesquisa na área de bioprospecção”, ressalta Guimarães.

A Coalizão Brasil vê as eleições como o momento certo para iniciar o diálogo com os candidatos. “O uso da terra é um grande desafio para os poderes executivo e legislativo, mas que se mostra também como uma oportunidade de agenda positiva, na qual os ganhos atingem todos os setores da sociedade e fortalecem o desenvolvimento do Brasil. Mas o governo não conseguirá implementar todas essas propostas sozinho. Por isso, a Coalizão Brasil e toda sua rede de mais de 170 membros se coloca à disposição dos candidatos para ajudá-los a compreender e endossar estas propostas”, conclui André.

O documento completo com as 28 propostas e seu detalhamento pode ser lido aqui.

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