É possível aumentar a produção agropecuária sem cortar mais nenhuma árvore

Em debate realizado no Senado na semana passada foi apresentada uma ideia que parece ser capaz de acabar com o desmatamento e, ao mesmo tempo, ampliar a produção agropecuária em todo o país. A ideia, exposta pelo engenheiro florestal Tasso Azevedo, é simples: proibir todo e qualquer desmatamento no território nacional. Segundo ele, a proibição incentivaria o aumento da produtividade agropecuária, criando o que ele prevê ser um cenário de brutal crescimento desta: "redução de desmatamento e ganhos de produtividade são irmãos siameses, uma acompanha o outro". Azevedo dá o exemplo do que aconteceu no estado de São Paulo: a lei da Mata Atlântica, de 2006, proibiu definitivamente o avanço floresta adentro. Com isto, a área ocupada pela agropecuária foi reduzida em um milhão de hectares, enquanto a ocupada por florestas nativas e reflorestadas aumentou, a produção agrícola cresceu 50% em 16 anos, e o desmatamento, estancou.

Mas quanta área estaria disponível para o crescimento agrícola neste novo cenário? Para responder a esta pergunta, vamos tomar como base o cenário de 2016: naquele ano, 32% do território brasileiro era ocupado pela agropecuária, o que corresponde a 269 milhões de hectares, sendo que 170 milhões de hectares eram ocupados por pastagens, 75 milhões pela agricultura e 24 milhões não estavam sendo utilizados. Dos 170 milhões de hectares de pastagens, algo entre 30 e 40 milhões estavam degradados e com produtividade em queda; a pecuária brasileira é um desastre, da ordem de 1,3 cabeça por hectare; dobrando esta produtividade para 2,6 cabeças por hectare, seria possível liberar 40 milhões de hectares para a agricultura. Somados então os 24 milhões de hectares não aproveitados em 2016 com os 40 milhões passíveis de serem liberados pelo aumento da produtividade da pecuária, o Brasil teria um estoque de mais de 60 milhões de hectares para atender às demandas da produção agrícola e da recuperação florestal. Tasso Azevedo diz que "não faz sentido gastar para desmatar se temos este ativo que pode ser recuperado. Nosso desafio é recuperar as áreas improdutivas e degradadas do país".

Se a ideia apresentada por Azevedo é lógica, ousada e animadora, o contexto político brasileiro parece não permitir sonhar com sua implantação rápida. Como relatado por Daniela Chiaretti no artigo do Valor Econômico que aqui pretendemos resumir, o senador Jorge Viana, no mesmo debate, lembrou que seus adversários políticos dizem que proteger o ambiente é a política do atraso, e que modelo bom de desenvolvimento da Amazônia é o de Rondônia, onde se desmatou tudo o que se podia e mais um tanto.

http://www.valor.com.br/brasil/5458363/uma-boa-proposta-no-brasil-de-geni